sábado, 16 de dezembro de 2017

2017: o ano que resolvi ler diversidade

Em 2017, decidi ler mais mulheres, autores negros, LGBTQIA, contemporâneos e imigrantes/ refugiados. Veja tudo o que li aqui.
Houve um tempo em que 80% a 90% das minhas leituras eram de autores homens, brancos, heterossexuais, europeus ou norte-americanos, do séculos 19 e 20. Este ano, achei por bem nao privilegiar mais quem sempre teve privilégios.
Nao adiantaria nada lutar contra a desigualdade de gênero e raça e continuar lendo apenas os que sempre tiveram voz. Eu precisava ouvir outras vozes, sair da bolha e foi um ano otimo.
Nao estou dizendo com isso que nao lerei mais homens brancos, eles so nao serao mais prioridade, vao ter que entrar na fila do pao com os outros e aguardar.
Estou reaprendendo a ler, desconstruindo tudo o que me foi passado na escola, culturalmente e socialmente. Vou ler o que realmente gosto e nao porque é um cânone/ classico.
Li também ensaios, HQs, memorias, biografias, epistolares, diarios, teatro e poesia, ou seja, diversifiquei também nos gêneros literarios.
Em 2018, pretendo continuar lendo assim, vou priorizar autores latino-americanos e asiaticos que foram os que menos li em 2017.
Fiz alguns comentarios no Instagram ou no Goodreads dos livros citados abaixo.

Ler mulheres

Quem acompanha este blog sabe que leio bastante mulheres. Porem, este ano decidi ler mais autoras negras, poetas e literatura feminista de ficçao e nao-ficçao.
Li distopias feministas com a mesma pegada de O Conto da Aia, da Margaret Atwood:

  • When She Woke, da Hillary Jordan (palavras-chaves: mulher, estado teocratico, aborto)
  • The Power, da Naomi Alderman (Se o poder dos homens fossem transferidos para as mulheres e elas agissem como eles nas areas da religiao, politica, mafia. Quando a gente vê a inversao de papeis, é muito chocante. Por que é tao 'normal' quando um homem comete essas atrocidades?)
  • Bitch Planet: HQ sobre as NC (non-compliant), mulheres que nao sao compativeis com o sistema imposto sao enviadas para o Bitch Planet para serem regeneradas.

Li mulheres filosofas: Hannah Arendt e Simone Weil
Biografias de mulheres misticas/religiosas: Juana Inés de la Cruz, Joana D'Arc e Marguerite Porete
Li varias mulheres lésbicas e bissexuais
Para o projeto Mulheres que ganharam o Nobel de Literatura, li 7 livros da Toni Morrison, mais um livro da Alice Munro e um livro da Nelly Sachs.
Mulheres dramaturgas: So li duas, Yasmina Reza e Eve Ensler
"Algumas pessoas me perguntam: “Por que usar a palavra ‘feminista’? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?” Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral — mas escolher uma expressão vaga como “direitos humanos” é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento desse fato". 
(Sejamos todos feministas -Chimamanda Ngozi Adichie)

"Greatness, in the sense of outstanding or unique accomplishment, is a cryptogendered word. In ordinary usage and common understanding, “a great American” means a great American man, “a great writer” means a great male writer. To regender the word, it must modify a feminine noun (“a great American woman,” “a great woman writer”). To degender it, it must be used in a locution such as “great Americans/writers, both men and women . . .” Greatness in the abstract, in general, is still thought of as the province of men". 
(Who cares about the great american novel - Ursula K. LeGuin)

A escritora Marina Colasanti, no video "Mulheres, essas bárbaras que ameaçam o império", fala sobre "leitura feminina" e porque mesmo as escritoras rejeitavam este titulo e que agora pode ser motivo de afirmaçao. 






Ler autores negros

Meu desafio para o Black History Month (é o mês da consciência negra aqui na America do Norte, em fevereiro), eu me comprometi em ler 5 livros da Toni Morrison e acabei lendo 7, agora quero ler os 11 romances (faltam 4) e os livros de nao-ficçao, infantis e de poesia. Aprendi muito sobre a historia dos negros americanos desde o tempo da colonizaçao até os dias de hoje.


Projeto LBTQIA: li James Baldwin pela primeira vez, também li o roteiro do documentario "I am not your negro" sobre ele. Para este mesmo projeto li a autora nigeriana, Chinelo Okparanta.

Poetas negrxs: li Tupac Shakur, Alice Walker, Ijeoma Umebinyuo, Dionne Brand, Nikki Giovanni, Warsan Shire e Nayyira Waheed

Memorias: Fome, da Roxane Gay

Feminismo: Como educar crianças feministas, da Chimamanda.
Never
trust anyone
who says
they do not see color
this means
to them
you are invisible
(Salt - Nayyrah Waheed)


“Your silence will not protect you.” 
“What are the words you do not yet have? What do you need to say? What are the tyrannies you swallow day by day and attempt to make your own, until you will sicken and die of them, still in silence.” 
“Black and Third World people are expected to educate white people as to our humanity. Women are expected to educate men. Lesbians and gay men are expected to educate the heterosexual world. The oppressors maintain their position and evade their responsibility for their own actions. There is a constant drain of energy which might be better used in redefining ourselves and devising realistic scenarios for altering the present and constructing the future.” 
(Sister outsider - Audre Lorde)


Numa sociedade supremacista branca e patriarcal, mulheres brancas, mulheres negras, homens negros, pessoas transexuais, lésbicas, gays podem falar do mesmo modo que homens brancos cis heterossexuais?
(O que é lugar de fala? - Djamila Ribeiro)



Ler autores LGBTQIA


Li mais de 30 livros de autores ou de tematica LGBTQIA. Recomendo para quem quer entender mais sobre intolerância e invisibilidade.


Ler autores imigrantes e refugiados


Por ser imigrante, gosto de ler a experiência expat de outras pessoas e cada experiência é pessoal e intransferivel. Na Europa e EUA esta questao é bem delicada nos dias atuais, a xenofobia, a islamofobia, os neonazistas, a extrema-direita nacionalista que culpa os imigrantes pelos problemas sociais e econômicos em que esses paises se encontram. 
Foi uma experiência incrivel para mim este tipo de leitura, muitos falam em tentar se adaptar a uma nova cultura, um novo idioma, a enfrentar o racismo e a discriminaçao, etc.

sábado, 2 de dezembro de 2017

#leiamulheres: Hunger, da Roxane Gay

A leitura dos meses de setembro e outubro do "Our Shared Shelf Group", foi o livro de memorias "Hunger, a Memoir of my Body" (Fome), da Roxane Gay.

Ja fiz um post falando de "Escritoras e transtornos alimentares" e este é mais um livro para endossar essa discussao. É uma leitura muito dolorida, haja estrutura psicologica para aguentar este assunto tao espinhoso, porém necessario.

Segundo a autora, nao é uma historia de sucesso, de emagrecimento, nao tem nenhuma foto dela na versao magra, nao é um livro de motivaçao, ao contrario, é uma luta diaria, uma historia real.

Ela sofre de obesidade morbida e nos conta como passou a comer sem limites. Aos 12 anos de idade, apaixonou-se por um garoto e vai com ele e sua gangue de meninos pro meio do mato onde é estuprada por ele e pelos outros garotos também.

Ela nao conseguiu contar para ninguém, por medo e vergonha. O silêncio transformou em transtorno alimentar. Entao ela comia, pois comendo o corpo dela ficaria repulsivo para os homens e eles nao se aproximariam dela. A comida também era um conforto, é o unico prazer que ela tem na vida.

Este trauma colocou-a em relacionamentos abusivos, pois ela achava que nao valia nada e nao merecia ser amada. Ela tem pavor de estar em um ambiente sozinha com um homem, pois pensa que todos que se aproximam é para fazer-lhe mal. Também tem pavor de toque, afeto, gente que se aproxima, abraça, etc.

A familia preocupada com o bem estar dela, levava-a para clinicas de emagrecimento, ela perdia peso, mas ao sair, voltava a engordar, porque o real problema nao era tratado. A obesidade era a consequencia de um problema bem mais sério que ela nao tinha dito para ninguém.

Ela fala da dificuldade em encontrar roupas, dos comentarios maldosos, dos memes que fazem dela por ser feminista, gorda e negra com o titulo "tipica feminista". 
Se ela vai no hospital por causa de uma gripe, os médicos nem escutam o que ela tem a dizer e ja vao medindo a pressao, achando que é algum problema relacionado à obesidade.

Fala da midia que vende dieta e comida saudavel como sinonimo de felicidade e aceitaçao. Programas de TV como The Biggest Loser, Fit to Fat to Fit, mostram que o gordo deve ser erradicado da sociedade. Nao so reality shows, mas comerciais, revistas que so publicam sobre celebridades que engordaram e emagreceram. Tem todo um monitoramento do corpo da mulher para que ela se sinta ou amada ou envergonhada. Mesmo apos um parto ela é forçada a entrar em forma o quanto antes.

Apesar de todas as dificuldades, a autora sempre foi inteligente, nao teve problemas em entrar nas melhores universidades, fez mestrado, doutorado, virou professora universitaria e escritora.

Recomendo muitissimo a leitura deste livro. Deixo-vos com algumas musicas que falam da relaçao com o corpo e auto-acitaçao

You can buy your hair if it won't grow
You can fix your nose if he says so
You can buy all the make-up
That M.A.C. can make, but if
You can't look inside you
Find out who am I to
Be in the position that make me feel
So damn unpretty
I'll make you feel unpretty too

Never insecure until I met you
Now I'm bein' stupid
I used to be so cute to me
Just a little bit skinny
Why do I look to all these things
To keep you happy
Maybe get rid of you
And then I'll get back to me

Mistreated, misplaced, misunderstood
Miss No-Way-It's-All-Good,
It didn't slow me down.
Mistaken, always second guessing
Underestimated, look, I'm still around

Pretty, pretty, please, don't you ever, ever feel
Like you're less than fucking perfect
Pretty, pretty, please, if you ever, ever feel
Like you're nothing. You're fucking perfect to me

You're so mean, so mean when you talk, when you talk
About yourself. You were wrong.
Change the voices, change the voices in your head, in your head
Make them like you instead.

So complicated,
Look how we all make it.
Filled with so much hatred
Such a tired game
It's enough, I've done all I could think of
Chased down all my demons
I've seen you do the same

The whole world's scared, so I swallow the fear
The only thing I should be drinking is an ice-cold beer
So cool in lying and we try, try, try but we try too hard
And it's a waste of my time.
Done looking for the critics, 'cause they're everywhere
They don't like my jeans, they don't get my hair
Exchange ourselves and we do it all the time
Why do we do that, why do I do that, why do I do that?

Quoi faire avec mon corps. 
le couché tôt, le levé tard. 
lui faire faire le sport. 

quoi faire avec mon corps. 
l'exciter, l'exhiber ou encore lui donner tord.

quoi faire avec mon corps.
l'intoxiquer, le purifier ou le peindre en noir.

quoi faire avec mon corps.
le faire courir ou méditer le coeœur des vivants, 
ou lui donner la mort.

je vieillirai avec, 
que ca me plaise ou non.
il ira ou j'irai.
À quoi bon de laisser flamber.
je vieillirai avec, 
que ca me plaise ou non.
il ira ou j'irai.
À quoi bon de se laisser tomber.

quoi faire avec mon corps.
le trafiquer pour parvenir à trahir son âge.

quoi faire avec mon corps.
lui visser des 'vuitton' aux talons pour le confort.

quoi faire avec mon corps.
le vendre, le donner ou jouer avec son genre.

quoi faire avec mon corps.
le guérir, le blesser ou le gaver d'animaux morts.

domingo, 5 de novembro de 2017

Tag Feminismo e Literatura

Vi a tag neste Booktube francês entao decidi traduzir e responder:

1) Quando e como você passou a ter consciência feminista?
Desde criança, quando me diziam que isso ou aquilo nao era coisa de menina e eu me revoltava. Quando eu era obrigada a ser girly, boazinha e sorridente para agradar os outros. Na época nao sabia que rebelar contra isso era feminismo, mas hoje sei.

2) Quais sao suas autoras favoritas? 
Virginia Woolf, Charlotte Bronte, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Carson McCullers, Simone de Beauvoir, Alice Munro, Toni Morrison, Alice Walker,etc.

3) Qual é a sua heroina de ficçao favorita?

4) Qual o ultimo livro com mensagem feminista que você leu?
Estou lendo "The Power", da Naomi Alderman, para o clube de leituras feministas "Our Shared Shelf". 
As mulheres, por terem passado por agressoes fisicas, sexuais e psicologicas durante milênios, sofreram uma mutaçao e desenvolveram um instinto de autodefesa, assim como as enguias elétricas, de dar choques para imobilizar e até matar seus agressores.

5) Qual o livro feminista que mais te marcou?
"O conto da Aia", da Margaret Atwood, "Um teto todo seu" e um conto chamado "A Society", ambos de Virginia Woolf.
Vou aproveitar para falar deste conto porque nunca vi ninguém falando: Um grupo de amigas se encontram para o cha da tarde e depois vao conversar sobre homens e ovaciona-los "quao grandes, fortes, nobres, brilhantes, corajosos eles sao". Apenas uma delas acha o assunto chato, pois é lesbica e nao interessa nem um pouco pelos feitos dos homens. 
Elas nao tinham referências femininas, ja que o papel das mulheres na sociedade era casar e procriar. Começavam a engravidar desde muito jovens, parindo em média 10 filhos, enquanto o homem podia se dedicar à sua carreira brilhante.
A Virginia é ironica, tem aquele tipico humor inglês na hora de dar alfinetadas, ela questiona a necessidade de parir tantos filhos, seria para povoar as colônias?
Também fala da obsessao do homem pela castidade: "Chastity is nothing but ignorance - a most discreditable state of mind. We should admit only the unchaste to our society. It is unfair to brand women with chastity as with unchastity".
É um conto que discute gênero, maternidade, colonizaçao, guerra, literatura, etc.

6) Qual o livro que mais te irritou por ser cheio de clichês sobre mulheres?
"Émile ou de l'éducation", do Rousseau - Ele fala como um menino deve ser educado e no capitulo "Sophie ou la femme", ele ja começa dizendo que a mulher só existe para servir, dar prazer, obedecer e ser fiel o homem, deve ser linda, meiga, calma, magra, simpatica, calada e que deve se ocupar dos serviços domésticos. Se o cara que tinha ideias revolucionarias pensava assim, nem quero imaginar os que tinham a mente retrógrada.

"Oliver Twist", do Charles Dickens. Ele é um dos melhores escritores, mas é puritano-moralista, logo misogino e antissemita as hell. Neste livro tem duas personagens femininas, a boazinha com um final feliz e a puta, vitima de um dos feminicidios mais brutais da literatura.
Vou deixar umas passagens deste livro com chuvas de clichês e tirem suas proprias conclusoes:

"Quando uma mulher se irrita, principalmente quando é infeliz; pode chegar a um ponto tal que poucos homens se atrevam a provocá-la." (infeliz neste caso significa nao ter homem) 

" — É o diabo ter-se de tratar com mulheres — disse o judeu. — Mas elas são muito espertas, e nada se consegue sem elas."  
"As mulheres sabem sempre dizer as coisas em poucas palavras, exceto quando se enfurecem... porque então não acabam mais".  

"— É que você é mulher — replicou Brittles.— Brittles tem razão — disse o Sr. Giles, aprovando com um gesto o que ele acabava de dizer. — Da parte de uma mulher não se deve esperar outra coisa; mas nós, que somos homens, pegamos numa lanterna surda que estava na chaminé de Brittles e descemos a escada às apalpadelas, no escuro, assim". (a superioridade!) 

"O frescor nas faces da rapariga era tal que a fazia semelhante, se for isso de fácil suposição, a um anjo.Se muito, contava dezessete anos. Por ser tão fina e delicada, tão meiga e gentil, tão imaculada e bela, não encontrava par que pudesse fazer-lhe companhia. Dos olhos, brilhava uma inteligência que não parecia combinar nem com sua idade, nem com o mundo. Alternando candura e graça, as infinitas luzes que iluminavam sua face deixavam claro que tinha nascido para a paz e a felicidade caseira.Ocupava-se dos talheres; tendo visto os olhos da senhora sobre si, jogou infantilmente os cabelos para trás e sorriu, tomada de afeto e carinho." (a idealizaçao/infantilizaçao da mulher perfeita) 

"Abençoados sejam os olhos femininos por sempre enxergar apenas o lado comovente do mundo" 

"que se um homem se casa com uma mulher que tem uma mancha, o passar do tempo pode tornar tal esposa um peso para o marido que a sociedade vê ascender" (em busca da mulher imaculada) 

"— O posto do homem é o de chefe — continuou o Sr. Bumble.— E qual é o lugar da mulher? — indagou a viúva do Sr. Corney.— Obedecer, senhora — berrou o Sr. Bumble."  (a superioridade de novo!) 

"— Saiu — disse Fagin. — Mandei-a passear com outra rapariga porque queria conversar contigo a sós.— Certo, mas eu preferia que antes ela me preparasse algumas torradas com manteiga; mas fale, pois isso não me interromperá" (a mulher serviçal: como assim? Sai sem antes me servir?) 

"— Pobre Betty! Ela foi ver o cadáver, já com o rosto transtornado, e saiu louca, a gritar pela rua; foi preciso que se lhe metessem a camisa de força para arrastá-la ao hospício, onde ela está agora." (claro que nao ia faltar a louca-histérica que precisa ser internada) 

"a lei acredita que a mulher age segundo a determinação do marido" (a lei criada por homens, obvio!)
O Roman Polanski fez a adaptaçao cinematografica de Oliver Twist e nao colocou a personagem boazinha e nao mencionou que o aliciador de crianças era judeu como no livro. A adaptaçao do filme ficou melhor apresentavel, apesar do diretor, que é um otimo profissional e um ser humano/homem traste. É rir para nao chorar!
Entao, entramos naquele caso, como separar a arte do artista?
Sugiro três videos, em inglês: Rowan Ellis, Ariel Bissett, Savannah Brown

Neste outro artigo sobre a Flip, o autor Marlon James declara: “Charles Dickens defendeu manifestações que mataram mais de 400 jamaicanos. Era um filho da mãe. Ao mesmo tempo, poucos escritores tiveram uma influência tão grande na forma como estruturo meus livros”.

Um dia desses concordei com alguém que ha muita misoginia nas obras do Gabriel Garcia Marquez, foi tanta gente que se sentiu ofendida. Isso nao quer dizer que ele nao é um otimo escritor e que nao leio, pelo contrario, é so escrever o nome dele na busca deste blog e veja o quanto ja falei bem de suas obras, mas nao sou cega, nem fanatica e nao vou colocar mais um homem no pedestal e fingir que so vejo o lado bom. Inclusive inclui no meu comentario: se apagar a misoginia nas artes e literatura nao vai sobrar muita coisa. Eu nao sou a favor de nenhuma censura, pelo contrario, as pessoas tem mais é que ver isso, sentir o mal estar e perceber as injustiças cometidas pelos autores.
No livro Bad Feminist, da Roxane Gay, ela declara que escuta hip hop misogino e assiste à programas trash de tv que tratam a mulher como pedaço de carne, por isso ela se considera ma.

7) Que livro você recomendaria para quem tem interesse em começar ler literatura feminista? 
Um livro bem rapido de ler e sem complicaçao: Sejamos todos feministas, da Chimamanda


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

como ser a pior usuaria de Instagram do mundo

Ja falei aqui como ser a pior blogueira, hoje vou ensinar como ser a pior instagrammer.
Com o tal dos algoritmos, as pessoas sao obrigadas a curtir o maximo de fotos, comentar, ver os stories, usar hashtags e ter o perfil aberto. Se você nao fizer tudo isso, sua foto nao vai aparecer para os outros ou vai aparecer depois de 3 dias.

Bem-vindo ao episodio Nosedive, de Black Mirror:


Dar like/comentar para ganhar audiência: Eu so dou like sincero, se nao me interessa o que esta sendo mostrado eu vou curtir so pra fazer média? Not me, Satan! Comentar menos ainda.

Ficar puxando saco de digital influencer: Nao sigo, nao curto, nao me interessa a vida de Dorians Gray modernos que vivem de aparências.
"Uma pessoa definida pela ansiedade de ser curtida, temos uma pessoa sem integridade, sem um centro, um narcisista incapaz de tolerar que sua autoimagem seja manchada pela possibilidade de não ser curtido.
Se uma pessoa, no entanto, dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é." (Jonathan Franzen - Como ficar sozinho)


Além de ficar curtindo e interagindo tem que postar conteudo, quanto mais futil, melhor. Tipo a poha de uma xicara de café. “Insignificance, my friend, is the essence of existence” (The Festival of Insignificance - Milan Kundera)


Como meu Insta funciona:
  • Tem cadeadinho, nao é perfil publico
  • Eu so dou like ou comento quando eu quero, quando acho relevante
  • Tenho preguiça de stories, eu até posto quando estou de bom humor, mas raramente vejo, às vezes no fim-de-semana e so de algumas pessoas.
  • Nao uso mais hashtags por ter um perfil privé.
  • A maioria das fotos é sobre livros que ninguém leu e so interessa a mim mesma, ainda por cima livros de biblioteca ou e-books e isso nao chama atençao, porque nao ostento uma estante e nao tenho parcerias. Ou seja, minha pontuaçao ta la embaixo. Se interessa so a mim mesma, qual a necessidade de jogar on-line? Melhor escrever um diario.


O que farei para reverter minha impopularidade? Absolutamente nada. Acho que os algoritmos refletem na vida virtual o que eu sou na vida real: introspectiva, sem graça e sem glamour.
Como disse Baudelaire: "Ninguém imagina o esforço sobre-humano que eu tenho que fazer para parecer com todo mundo". Portanto, prefiro ser eu mesma e não sou obrigada a me esforçar on-line, tenho mais o que fazer além de ficar dando likes o dia inteiro, só dou quando quero e não vou postar café para ganhar likes, vou continuar postando minhas fotos nonsense de coisas que me interessam e não de coisas para agradar o público. 
Ser eu mesma é resistência, contracultura? A  que ponto chegamos! 
Minha vida real é bem simples, trabalho 8 horas por dia, moro sozinha e tenho que por ordem no barraco: lavar, limpar, cozinhar. Sou de poucos amigos, quase um fantasma que entra e sai dos lugares sem ser notada. Tenho vida social sozinha. Sou arquivista, trabalho com documentos, tenho pouco contato com gente no trabalho. Sempre fui assim desde criança, interagir com humanos é muito dificil para mim, tenho crises de ansiedade e só me sinto bem quando sou eu mesma no meu canto ou com pouquissimas pessoas do meu convivio com quem me sinto à vontade.
Nao tenho Facebook, nem Whatsapp e nao vejo necessidade nenhuma em tê-los. Talvez eu nao dure muito tempo no Insta, talvez eu morra virtualmente ou apareça de temps en temps. O excesso de (des)informaçao cansa!


domingo, 8 de outubro de 2017

Hannah Arendt - Eichmann em Jerusalém - Parte 2

Ja falei da parte 1, "A corte" aqui.

O acusado


Adolf Eichmann nasceu em 1906, em Solingen, uma cidadezinha alemã. Na escola foi um aluno bem mediocre e não chegou a terminar o ensino médio.

Trabalhou como vendedor nas empresas Vacuum Oil Company e na Elektrobau Company, localizadas na Austria. Porém, era um empregado mediocre e foi demitido das duas.
Estava noivo de Veronika, com quem se casou e so o fez porque casados nao eram demitidos facilmente dos empregos e a taxa desemprego era altissima.

Entrou para o Partido, nao por ideologia, mas como muito alemaes, para sobreviver e conseguir trabalho. Nao teve tempo de se informar sobre o partido, cujo programa nem sequer conhecia e nem leu Mein Kampf.

Arendt observou o jeito que Eichmann se exprimia na corte, utilizando apenas frases feitas, clichês e linguagem burocratica. Segundo ela: "Quando mais escutava-o, mais era evidente que sua incapacidade de falar estava estritamente relacionada com sua incapacidade de pensar"

Ele nunca gostou dos empregos que teve, era um homem frustrado. Quando entrou na Sicherheitsdienst (SD) - serviço de espionagem, ignorava completamente a real natureza do lugar e foi uma decepçao. Também nao podia prever os proximos eventos.

Sua primeira tarefa na SD foi de arquivar informaçoes sobre a maçonaria. Na logica nazista maçon, judeu, catolico e comunista eram tudo farinha do mesmo saco. Ele também colaborou na formaçao do museu da maçonaria. Os nazistas criavam museus para perpetuar a memoria dos inimigos. Depois foi transferido para o departamento que cuidaria dos assuntos judaicos.

Para esclarecer sobre a burocracia, orgaos, departamentos e onde Eichmann trabalhava exatamente:

A SD (Sicherheitsdienst ) era um orgao subordinado à SS (Schutzstaffel) - esquadrao de proteçao, grupo paramilitar e policial nazista. Em seguida, a SD e a Gestapo (Geheime Staatspolizei) - policia secreta do Estado - passam a ser subordinadas à RSHA (Reichssicherheitshauptamt) - Escritorio central de segurança do Reich - que era dividida em 7 seçoes e inumeras subseçoes. O Eichmann trabalhava na Seçao IV (combate aos inimigos do Estado), subseçao B (seitas), sub-subseçao 4 (judeus).
Resumindo: ele trabalhava na seçao IV-B4 da RSHA que se ocupava do destino dos judeus e onde ele foi promovido a Obersturmbannführer, uma espécie de tenente-coronel, mas na realidade nao passava de um mero chefe da sub-subseçao de um departamento burocrata.

O terceiro capitulo é intitulado "Especialista em assuntos judaicos", pois foi esse o titulo que ele recebeu sem saber nada sobre a historia dos judeus. Eichmann, a pedido de seu chefe, leu a obra classica "Der Judenstaat" (O Estado Judaico), de Theodor Herzl, o pai do sionismo (movimento politico e religioso nascido pela nostalgia de Siao, ou seja, tinham o desejo de ter uma patria, pois os judeus viviam espalhados pelo mundo). Também leu "Historia do Sionismo", de Adolf Böhm e sempre confundia um livro com o outro. Ele achou a ideia sionista interessante e passou a fazer tudo o que estava ao seu alcance para a deportaçao dos judeus.

Primeira soluçao: expulsao

  • Imigraçao ilegal para Palestina 
  • Projeto Madagascar: Evacuaçao de 4 milhoes de judeus da Europa para esta ilha que estava sob o dominio francês, na costa da Africa e que ja tinha mais de 4 milhoes de pessoas da populaçao nativa. Nao tinha transporte suficiente para levar toda essa gente, pois as fronteiras estavam fechadas por causa da guerra, o mar era controlado pelos ingleses e a ilha controlada pelos franceses.


Segunda soluçao: concentraçao
Em 1939, o regime nazista tornou-se ainda mais totalitario e criminoso

  • Campos de concentraçao
  • Campos de exterminio


Soluçao final: exterminio
Estado Judenrein (sem judeus)

Segundo Arendt, Eichmann foi levado pelas circunstâncias, nao sabia exatamente o que estava fazendo e nem imaginava o tao complexo e perigoso o regime tornaria com o passar dos anos. Porém, ele cumpria as ordens e obedecia sem questionar seus superiores, como todo burocrata.
Ele nao era um monstro que queriam transforma-lo, era um homem comum, menosprezado por seus colegas e chefe, inofensivo, rejeitava a violência em seu cotidiano e era muito eficiente nas tarefas em que estava encarregado de cumprir. Segundo a autora, ele vivia em um Estado Criminal e desobedecer as ordens era um delito e violaçao da norma estatal, passivel de graves consequencias.
Ela questiona os meios usados por Israel para sequestra-lo na Argentina e condena-lo impondo a pena de morte.
O condenado junto com a defesa declararam que ele foi usado como bode expiatorio, pois estava pagando nao pelos crimes que cometeu, mas pelos crimes do regime em que fazia parte, ele era apenas um alemao representando todos o que serviram o regime. Ele nao era inocente, pois era de uma certa forma cumplice de forma indireta do que aconteceu e trabalhava no setor responsavel pela evacuaçao e deportaçao dos judeus. Embora ele tenha dito que nunca matou ninguém ativamente, indiretamente ele organizou as saidas dos trens para os campos de concentraçao.

A autora também expoe os paises que foram coniventes, inclusive enviaram judeus, comunistas, ciganos, intelectuais, entre outros para esses campos. Fala das igrejas protestantes e catolicas, incluindo o vaticano que nem sequer manisfestaram, so depois do fim do regime que algumas emitiram nota de perdao pela omissao. (Eita corja que dança conforme a musica!)

Ela também menciona os crimes barbaros cometidos pelos paises vencedores da guerra e que nunca foram a julgamento.

É um livro muito interessante para refletir sobre justiça, acusaçao, crimes de guerra,  direito internacional, responsabilidades, submissao, obediência cega, a transformaçao de crimes graves em algo banal e cotidiano, etc.


Recomendo outros livros que falam de processo e condenaçao de pessoas:


  • "Eu acuso!", de Émile Zola. É uma carta aberta ao Presidente Félix Faure, publicada no jornal "L'Aurore", em 1898, em que ele defende o capitao Alfred Dreyfus, um judeu que estava sendo acusado injustamente de vender informaçoes confidenciais para Alemanha. Além de denunciar toda a corrupçao do sistema politico e judiciario, Zola acusa-os de antissemitas.
  • "O ultimo dia de um condenado", de Victor Hugo. Um homem foi condenado e sera guilhotinado, nos leitores nao sabemos que crime ele cometeu. Ja falei do livro aqui
  • "O Processo", de Franz Kafka. Joseph K. esta em seu lar, a policia invade, confisca seus bens e leva-o preso. Ele nao sabe porque foi preso, pois nao cometeu crime nenhum e ninguém sabe informa-lo. Mostra um sistema altamente burocratico, cheio de regras, ninguém entende aquela bagunça, nem os leitores. 
  • "O Estrangeiro", de Albert Camus. Meursault é o cara mais apatico do mundo, nao tem um pingo de sentimento por ninguém e nem remorso ou arrependimento pelo homicidio sem motivo que cometeu. A corte passa a julga-lo mais por seu comportamento, sua indiferença e sua personalidade fria que pelo crime.
Veja também: